A boa volta
Estabilizo-me, temporariamente, em um passado senil. Casas
antigas de piso em mosaico imitando chão português, jarros de
louça exaltando pintura clássica de Romeu e Julieta, vitrolas com
disco pesado de goma laca, 33 rotações por minutos, tocando George
Feyer e seus Ecos de Paris, um bule de ágata branca figurando em sua
redonda extremidade um buquê de rosinhas tímidas, uma poltrona
antiga da época dos coronéis com os quatro cantos em madeira
talhada, a imagem do Sagrado Coração de Jesus acima do umbral
da porta de entrada, sanefa de madeira delineando uma cortina azul
celeste com franjinhas indianas, um ferro de marcar rebanho bovino
com letras elegantes não pertencentes ao novo morador – estava lá
antes da chegada dele -, uma janela silenciosa olhando o infinito
cinza e um galho de craibeira, emoldurando a morada.
Estabilizo-me nesse passado como quem nasceu nele,
embora o passado (des)pertença ao homem: ele é parte do tempo e
da solidão. Mesmo assim, estabilizar-me é a minha prova atual, é a
revelação pintada com letras de ontem, é o jeito de me apropriar de
uma cena que me persegue e me coloca em um balanço preso aos
galhos da mangueira engravidada de flores e frutos. Nada poderá me
afastar daquela estação infantil, pois há notas musicais nas vozes dos
ventos, no suco do tomate equilibrando canções.
Vejo o sol tão amarelo!
O muro, os tijolos salitrizados pelas margens dos rios São
Bento e Totoró – quando chovia-, bichos de asas zunzunando poesia
em meus ouvidos e muita, muita saudade não sei do quê, além de
uma nostalgia que me presenteia a boa volta. Sinto-me, ligeiramente,
mas sinto-me; rodeada de lembranças feitas de açúcar.
Por instantes, ancoro-me nesse píer de pensamentos
ondulados e vejo o inverno seridoense se marcando como singular
tempo de águas: correntezas, riachos, sapinhos, cururus, sonata
de rãs coaxando às margens das poças virgens, areia permeável
servindo de ambiente para as brincadeiras entardecidas, gatos
ouriçados lambendo-se, telhado úmido pelos temporais vespertinos,
cobertores com cheiro de sabão dos quaradouros, perfume de
mãe exalando pelos ares e um vasto coração compassado ouvindo
Summertime e I love Paris. Era o do meu pai. Feyer tocava em um
gramofone de corneta dourada adquirido de segunda mão, à duras
pinceladas nas paredes dos casarões currais-novenses. O cigarro
se colocava na esquina de sua boca e um monturo de cinza virava
montanha morta. Meu pai deitava-se sobre aquela poltrona e o disco
de 33 rotações rodava, rodava e rodava. Viajava à Europa quando
ouvia a coletânea. Seus olhos dançavam acompanhando as notas do
piano e os dedos das mãos tocavam no vácuo as teclas de ébano,
fazendo as dissonâncias.
Estabilizo-me registrando uma ventania passada, cheia
de modismos como todas as ventanias: roupas gomadas, bigode à
lápis e cabelo à rockabilly. Em contraponto à influência estrangeira,
um espelhinho oval e um pente fino no bolso da camisa de volta
ao mundo muito bem passada, calças em tergal vincadas e sapato
envernizado de ver a cara. Foram, aqueles, os ventos mais promissores
que assanharam o topete loiro do meu pai que viveu revoluções,
embora nunca tenha sido um homem do front. Tempos que lhe fizeram
promessas de velhice sã e que lhe legaram o despojamento dos homens
espirituosos.
Estabilizo-me ao sabor do doce de goiaba, suco de umbu,
malassada, orelha de vovó e puxa-puxa, guloseimas com gosto
de amor, saídas das mãos amorosas de minha mãe. Lembranças
sinestésicas!
As imagens de coloridos caleidoscópios e se misturam
compondo um cenário de encantamento como aqueles narrados
em detalhes pelas vozes dos meus ancestrais nas noites de lua,
naturalmente preparadas para os momentos das contações de
histórias da infância ingênua de todos nós.
Compreendo as viagens nos túneis do tempo, criadas
pelas mentes engenhosas dos cientistas. Para mim, elas são muito
reais, uma vez que não necessito me aventurar no desconhecido
para vislumbrar um passado imortalizado em minhas extensões
imaginativas. Não mesmo! Viver, por frações de segundos, já me
é uma aventura presenteada como dádiva para a configuração da
maturidade que, feito borboleta, se insinua e me provoca intensas
inquietações.
A boa volta é o saudosismo doce, é o reencontro com
imagens que nos marcam, servindo de ponte para o presente.
Maria Maria, in Cruzeiros.2015



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